Linha tênue

O nome dela era C.C.. Sua mãe teve princípio de aborto espontâneo, e ficou muito temerosa.. O médico recomendou repouso absoluto. A gravidez foi seguindo, até que o dia do parto tão esperado chegou, C.C. nasceu, sôfrega, através de um parto forceps.


O bebê foi desenvolvendo-se normalmente, e falou bem cedo. Com três anos, em casa, aprendeu a ler, e todos admiravam sua inteligência. Por outro lado, só aprendeu a evacuar no vaso sanitário aos cinco anos, e alimentava-se muito pouco. ‘Ah, é assim mesmo. Cada criança tem seu ritmo.”.

Como C.C. tinha um Q.I. acima da media, a escola fez a experiência de tentar adiantá-la nos estudos. Numa turma de alfabetização, a criança lia, acompanhava os conteúdos, porém, sua coordenação motora era débil, e a escrita ainda lhe era dificultosa, o que a fez retornar à turma de jardim da infância.

Era fascinada  por letras, quadros negros, e contação de histórias. Sempre antes de dormir sua mãe lhe contava  histórias de livros ou  inventadas. E por falar em dormir, em algumas fases da vida de C.C., principalmente na infância, o sono lhe era frequentemente interrompido, por pesadelos, o que fazia a criança dirigir-se, no meio da noite, para a cama da mãe.

A menina não queria brincar com as crianças; preferia brincar sozinha, ou com a mãe. Apesar de ter uma coleção de lindas bonecas, tinha predileção por caixas e latas. Gostava também de brincar de escola com a prima quando a mesma ia dormir em sua casa, e insistia nessa brincadeira, entediando-a. A mãe a aconselhava a brincar com as crianças, e o fato de ter tido alguns amigos durante a sua vida, deveu-se a este encorajamento. A mãe, sem saber, foi sua primeira e grande psicóloga, ajudando-a por toda a vida.

C.C. foi crescendo, e admirada na escola pelas suas notas e bom comportamento. A cada prova a ansiedade era enorme; tirar um sete, um oito, era o fim. Por sua vez, era um poço de timidez e introspecção, tinha verdadeiro pavor de apresentar trabalhos, provas orais e coisas do gênero. E também era péssima nas aulas de educação física, principalmente em jogos coletivos. Ninguém a queria fazendo parte de seus times, e a menina sofria calada.

Ela gostava dos ultrarromânticos, mas diziam que escrever sobre morte e tristeza não era coisa para crianças.

Ela queria ser aceita, e apesar de seu jeito tímido, fez algumas amigas.

Ela gostava muito de música, além da conta. Ela até gostava dos sucessos da atualidade, mas o que a atraía mais eram as antiguidades. Na adolescência, C.C. era fascinada por Elvis Presley, colecionava material dele, e entediava um pouco a sua mãe com esse interesse restrito;  pelos falsos gringos, pela banda Bread. Ela jamais comentava seu gosto musical excêntrico com as suas amigas; talvez elas pudessem debochar dela.

Fazendo um paralelo da relação de C.C. com sua mãe, uso a ilustração da série ‘Tha Good Doctor', onde o médico residente atípico Shaun Murphy adotou o Dr. Aaron Glassman como seu principal confidente e pessoa próxima. Assim, C.C. considerou, e considera ainda a sua mãe, desmarcando qualquer compromisso com qualquer outro amigo para ficar com ela. Como era normal entre os adolescentes, ela nunca envergonhou-se da companhia da mãe, e não estava nem aí quando diziam que ela só saía com a ‘mamãezinha’,  fato que até hoje acontece.

Teve poucos namorados, e sempre seus amores foram muito mais platônicos do que reais. Bem que os amores poderiam ser como nos sonhos... Sempre foi 8 ou 80, em termos amorosos e em todos os outros. Já foi loucamente apaixonada, hiperfocada e também totalmente desinteressada.

C.C. concluiu seus estudos, e sua primeira graduação, jamais exercendo sua profissão por falta de vocação. Ela definitivamente não levava ‘jeito para a coisa’ devido a sua dificuldade nas interações sociais. A teoria lhe pareceu fácil, mas a dinâmica da prática era um tanto que incompreensível. O estágio na área lhe frustrou, assim como os empregos na  iniciativa privada. A ânsia e seu enorme senso de responsabilidade muitas vezes a faziam errar. Ela chorava. A tristeza lhe causava sonolência.

Casou-se, e foi uma experiência traumática. Toda uma vida de enormes expectativas, tentativas para encaixar-se e socializar-se, a tristeza por sofrer injustiças, a dificuldade em superar frustrações,  unindo-se a esse relacionamento mal-sucedido a levaram, desde os seus 24 anos,  a crises. TAG, síndrome do pânico, labirintite, hipertensão, fobia social, agorafobia... foram tantos os diagnósticos... Frontal, Anafranil, Vertix, Rivotril, Bromazepan, Quetiapina, Clozapina, Lamotrigina, Excitalopram, Zolpidem... épocas em que os medicamentos faziam-lhe companhia e épocas em que não.

Voltando a uma de suas paixões, as Letras; foi através dela que encaixou-se em um grupo. Finalmente. Ela tinha com quem sobre aquilo que mais gostava sem medo. Era a sua praia. A literatura e Deus, em primeiro lugar lhe ajudaram muito em suas relações sociais, e lhe deram amigos.

Não dá para explanar sobre todos os detalhes sobre a vida dessa mulher, mãe, profissional, nem sempre bem-sucedida; as linhas seriam poucas.

Já ouviu de tudo: “Como ela é inteligente!”, “Como ela é comportada!”, “Como ela se veste mal!”, “Como ela é medrosa!”, “Como é confusa!”, “Você não pode sempre dizer a verdade!”, “Leva tudo ao pé da letra.”, “É muito lerda!”, “É agitada!”, “Vive no mundo da lua!’, “Iludida, coitada!’, “Acredite menos nos outros!”, “Pare de criar expectativas!”, “Você só fala nisso!’, “É muito responsável!’, “É competente!”, “É ‘vaquinha de presépio!’”, “É fresca!”, “Chora à toa!”, “Como escreve bem!’, “Ela é esquisita!’, “Não entende que isso é uma ironia?”, “É antissocial!”, “Tem que aprender a manter as amizades!”, “Tem que olhar nos olhos", “Pare de se sobrecarregar!”, “Ela é meio doidinha!!, “Dessa idade, e tão infantil...”, “Como você é fria!”, “É muito carinhosa!”,  “Ah, ela é isolada mesmo!”.

Ela jura que tentou adequar-se aos moldes. E em parte, conseguiu. Ela gosta de fazer sempre as mesmas coisas, e não se cansa.

Na meia-idade, por muitas vezes não se entender e não ser compreendida, a busca por si mesma a levou a um diagnóstico. Ela é um misto de tudo isso porque está, como muitas outras mulheres com um ‘quê' de esquisitice, na linha tênue e muitas vezes, imperceptível, da atipicidade. E está tudo bem, obrigada!

Ela é uma mistura de café e ansiolíticos.

Já superou muitos obstáculos. Mas por favor, evitem ligar para ela porque a mesma continua detestando chamadas telefônicas.

 

*Claudia Lundgren

 

*Escritora, educadora infantil, poetisa e colunista brasileira, produtora de material audiovisual, acadêmica de Letras, coautora em diversas Antologias e autora de dois livros solo: ‘Alma de Poeta' e ‘Simplesmente Poemas’.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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