Mulheres incompreendidas ou deficiências invisíveis?

 


Texto por Juliana Carlos 

Todo mundo que entra em contato mais profundo com o autismo, seja através do diagnóstico de alguém da família, de algum amigo ou até mesmo através de seu trabalho, se torna familiar aos critérios diagnósticos presentes no tal DSM-V. Este Manual é publicado pela Associação Americana de Psiquiatria e é um guia que traz as informações diagnósticas e estatísticas para os transtornos mentais.

Diagnóstico e estatístico. Isso quer dizer que é baseado em estudos científicos publicados ao longo de um período e reúne dados sobre a apresentação dos transtornos em pacientes. Também traz a frequência observada na população, características principais desses transtornos e critérios para que os profissionais de saúde mental observem seus pacientes e formem diagnósticos com base no que a comunidade científica aceita como fato. Sobre os critérios diagnósticos para o transtorno do espectro autista, como eu já citei, vemos muita informação por aí, pelas redes. Os critérios são: movimentos repetitivos, interesse restrito, dificuldades de socialização e alterações sensoriais (estas mereciam um destaque maior, mas a comunidade de psiquiatras é formada por uma maioria neurotípica que ainda não nos entende completamente…). 

Poréééém… eu resolvi olhar sobre outro aspecto: o que me afetou diretamente. A perguntinha “Por que tantas mulheres sofrem com a falta de diagnóstico de autismo?” começa a ser respondida lá, no próprio DSM-V. Não é porque não sejam autistas. É, primeiramente, porque os estudos sobre autismo sofrem da chamada “Girl Gap”. A lacuna feminina. Vocês sabiam que tem estudos que nem tem participantes mulheres? E todos (TODOS) os estudos que fundamentaram o DSM-V baseiam sua proporção de participantes na proporção assumida pelo DSM-V, que é de 4 homens para 1 mulher? Já começa errado por aí, porque, por exemplo, se as mulheres apresentam características diferentes dos homens, essas características dificilmente irão ser notadas em uma análise estatística. 

A discrepância entre homens e mulheres nos estudos científicos e a falta de mapeamento das características femininas na apresentação do autismo ficam ainda mais “interessantes” quando trazemos outro probleminha que também está no DSM-V: a apresentação de deficiência intelectual associada ao autismo é maior em mulheres. Isso é um fato observado. Agora entra o questionamento: será que quando não há deficiência intelectual, mas há autismo, a família ainda é capaz de perceber as características autistas de uma menina? Autismo visível em sua maioria em casos de deficiência intelectual + lacuna feminina nos estudos científicos, quando jogados no nosso caldeirão cultural… temos a receita perfeita para meninas passarem despercebidas na detecção do autismo, principalmente nos níveis de suporte mais reduzidos. 

Você aí, que já foi menina, me responda: já ouviu que menina tem que ser quietinha? Que não pode ir pra rua ficar brincando de correr? Que tem que brincar calminha, ser organizada, ajudar a arrumar e não desarrumar? Eu digo mais, quantas vezes ouvi “Que mania feia!” ou “Para de fazer isso, meninas têm que ter modos!” durante a infância, quando os parentes queriam reprimir minhas estereotipias. Além de não ver minha preferência pela solitude como alerta, minha incapacidade de conversar com certas pessoas como mutismo seletivo ou meu transtorno de processamento sensorial como algo além da frescura, eu era educada a reprimir as outras tantas características que tornariam o autismo visível. Ou seja, como minhas características cognitivas eram preservadas, eu era capaz de entender e aprender estratégias para mascarar meu comportamento, além de serem vistas como benéficas para uma menina minha “timidez exagerada” e comportamento quieto. Passei despercebida.

Aí, por ser um transtorno do neurodesenvolvimento, detectado na infância, e a menina só começa a “dar defeito” (metáfora) quando é adolescente, os psiquiatras recorrem ao… DSM-V! E nosso conhecido manual diz o que? 1. não teve autismo detectado quando era pequena; 2. é menina… só pode ser outro transtorno. E o que o DSM-V traz como transtornos que são mais prevalentes no sexo feminino? Esquizofrenia ou transtorno afetivo bipolar, ou TDAH, que tem uma ocorrência de pouco mais de 2 meninos pra cada menina. 

Estudos realizados recentemente já trouxeram alguns dados: , quando se pesquisa, em um grupo proporcional na quantidade de meninos e meninas,a proporção real chega até a 2 meninos diagnosticados para cada menina. A proporção assumida atualmente é o dobro disso. E tem mais: estudos em que as crianças eram escolhidas aleatoriamente (e não levadas ao estudo por suspeita dos pais ou da escola) a proporção cai ainda mais. O olhar da escola e dos pais influencia diretamente a quantidade de meninas diagnosticadas e isso está comprovado. 

A matemática é simples. Dependendo do critério, para cada menina diagnosticada, podemos estar deixando, na melhor das hipóteses, outra menina sem diagnóstico. Na pior das hipóteses, estamos deixando 3 meninas passarem despercebidas. Esta “lacuna feminina” de diagnós



ticos gera toda uma população de meninas, adolescentes e mulheres sem o suporte necessário durante seu crescimento, com prejuízos por toda uma vida em suas relações sociais, vida acadêmica e profissional. Seu estado de saúde geral muitas vezes é agravado por diagnósticos errados, como os já citados transtornos do neurodesenvolvimento. A falta de suporte leva ao desenvolvimento de comorbidades como ansiedade e depressão, com taxas altíssimas de suicídio. Nenhuma doença no Brasil causa tantas mortes na população feminina quanto o suicídio . Quantas dessas meninas e mulheres estarão dentro do espectro, invisíveis e incompreendidas?

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