Eu, autista no natal



Este ano tive meu primeiro Natal como autista!

Não, péra…

A gente nasce autista, não é mesmo? Então deixa eu corrigir: este ano tive meu quadragésimo terceiro Natal como autista! E meu primeiro SABENDO que sou autista!

Agora você me pergunta: faz diferença?

E eu respondo: faz diferença demais saber que meu problema com a coceira do gorro de Natal não era só por causa do calor, era hipersensibilidade tátil.

Faz diferença saber que em 40 anos limpando a bochecha depois do beijo da tia, meu problema não era com a tia, mas com o transtorno de processamento sensorial.

Faz a maior diferença saber que eu passei muitos anos dizendo que detestava a festa de Natal e aquela “criançada barulhenta”, mas eu não odeio crianças, nem Natal, mas o barulho e a dor que ele me causa nos tímpanos.

Há uns anos já estou habituada a pensar em adaptações e acolher dificuldades que surjam a partir das reações do meu filho, que tem diagnóstico desde os 3 anos. Ele tem alta seletividade alimentar, então sempre penso em cardápio específico, por exemplo. Ele também cansa rápido do burburinho e das interações, então penso em um canto recolhido onde ele possa se regular, sozinho. E acima de tudo, fico atenta pra os sinais de sobrecarga. Por anos tendo em mente essas adaptações, neste ano foi totalmente diferente pensar: e na hora em que eu estiver sobrecarregando? Como adaptar a festa PARA MIM? 

Revi todos os anos passados, em que ficava irritada a certo altura do evento e ia pra algum canto apenas ficar em silêncio. Sinal claro de sobrecarga… e que nunca respeitei. E os 30 anos em que só como arroz com salada verde e chester, que é SÓ o que como todos os anos no Natal e refleti: será isso um reflexo da rigidez cognitiva autista? Cumprimentos natalinos que nunca me senti confortável em realizar… e nunca obriguei meu filho a respeitar, mas me obrigava todos os anos: abraços, desejos de feliz natal com apertos de mão, beijinhos  no rosto que meu filho nunca precisava dar mas que eu me forçava por conta das convenções sociais.

Este ano, com o meu diagnóstico, fiz diferente. Evitei contato físico quando precisei, não me senti culpada por não provar tal ou qual prato novo, usei protetores auriculares, fiquei pouco tempo no evento…e o que mais me exauria todos os anos: não bati papo. Este foi meu primeiro Natal sabendo que sou autista e meu maior presente pra mim mesma foi respeitar meus limites, como nunca respeitei.


Texto por: Juli Carlos Oliva

Instagram: @julicarlosoliva

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